A violência no namoro Versão para impressão
Quinta, 24 Novembro 2011

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A violência no namoro, tem sido progressivamente considerada um problema social muito relevante, merecendo a atenção por parte de alguns dos/as investigadores/as (Ver Callahan; Tolman; Saunders, 2003). No entanto não lhe é dada ainda a devida importância, nos discursos sociais e educativos, comparando com a violência doméstica. Estes investigadores/as, justificam esta disparidade a partir de um conjunto de factores que têm condicionado a investigação neste domínio: as dificuldades associadas à própria definição de violência no namoro e à operacionalização desse conceito, a dificuldade de acesso dos investigadores a esta população (a necessária autorização dos pais e mães) e a inexistência de um estatuto legal, autónomo, alusivo à violência fora dos contextos domésticos. (Ver Hickman, Jaycox e Aronoff (2004)

Um estudo feito em Espanha com mulheres vitimas, comprovou que em 18,2% dos casos de agressões, estas se iniciaram antes de existir coabitação (Gómez; Méndez-Valdivia; Izquierdo; Muñiz; Díaz; Herrero; Coto, 2002).

Sabemos, no entanto, que a violência durante as relações de namoro não é um problema raro, alguns estudos têm revelado a existência de níveis preocupantes de violência nas relações de namoro, incluindo violência física (Straus, 2004). Em termos internacionais, estima-se uma prevalência situada entre os 21,8% e os 60% ( Katz; Kuffel; Coblentz, 2002; Kaura;  Allen, 2004;  Magdol;  Moffit; CaspiI;  Newman; Fagan;  Silva, 1997; Straus, 2004). Um estudo realizado em Portugal 2002, em contexto universitário, procurou caracterizar a prevalência do fenómeno da violência no namoro assim como, os valores culturais que o legitimam. (Ver Machado; Matos; Moreira, 2003). Concluindo que uma percentagem significativa de estudantes adoptava comportamentos violentas no contexto das suas relações de intimidade: 15,5% referiu ter sido vítima de pelo menos um acto abusivo durante o último ano e 21,7% admitiram já ter adoptado este tipo de comportamentos em relação aos seus/suas parceiros/as. Noutros estudos internacionais, verificou-se que, os comportamentos normalmente praticados, são considerados de “actos menos graves” de violência: insultar, difamar ou fazer afirmações graves para humilhar ou ferir, gritar ou ameaçar com intenção de meter medo, partir ou danificar objectos intencionalmente e dar bofetadas. Num estudo de Kaura; Allen, (2004), a taxa de violência física, sexual, era bastante reduzida, embora esses actos estivessem presentes (apertar o pescoço, actos sexuais contra vontade, murros, pontapés ou cabeçadas, bater com a cabeça na parede ou contra o chão, ameaças com armas).

A Violência no Namoro pode assumir-se como um prelúdio de violência conjugal, tornando-se crucial a intervenção e a prevenção deste tipo de violência nas camadas mais jovens. Uma vez que é nesta fase de desenvolvimento que se formam: a personalidade, a identidade e os padrões de relacionamento afectivo e interpessoal (Caridade & Machado, 2006; Duarte & Lima, 2006). As relações de namoro violentas caracterizadas pela restrição e controlo da autonomia da mulher usualmente originam um casamento abusivo. (ver Caridade e Machado (2006) e Matos (2000)). Tendo em conta todo este contexto, não faz sentido falar de violência conjugal sem focar a violência ocorrida numa etapa pré conjugal.

A violência expressa-se sob formas diversas, sendo a de maior visibilidade a física, sexual, psicológica, de discriminação sociocultural, e também de um certo mal-estar social, insegurança e incerteza. Algumas perspectivas e investigadores/as atribuem este tipo de violência a uma reprodução e repetição das relações familiares violentas que é perpetuado pelos jovens e crianças já em idade adulta.

Por isso, a violência no namoro é aceite por grande parte de rapazes e raparigas. O ciúme é naturalizado e “se o namorado não for ciumento é sinal que não gosta da rapariga”. O controlo que é feito tanto por rapazes como por raparigas, do telemóvel, é naturalizado. Temos reparado que as raparigas na sua grande maioria “obedecem” sem questionar o namorado. O agressor isola a vítima e para além da violência psicológica que exerce frequentemente, a violência física não é frequentemente exercida. Sendo o mais comum o insulto, os empurrões, a violência emocional, verbal e económica, em casos extremos temos tido homicídios no namoro.

Este tipo de violência é quase sempre o início de um ciclo que se vai perpetuando. Sendo mais fácil, nesta primeira fase, as jovens abandonarem os agressores, uma vez que não têm compromissos formais, ou seja não são casadas e não têm filhos/as.

As jovens justificam sempre a violência como algo que é intrínseco aos rapazes não considerando as atitudes violentas destes como violência. O elas estarem sempre ao pé do namorado, quer dizer, que estes estão muito apaixonados e por isso querem estar sempre junto, sem ninguém. Não consideram estranho, o/a namorado/a não “autorizar” que elas/es falem ou andem com os/as colegas.

As discussões acontecem frequentemente por ciúmes, e consideram que quando se reconciliam é muito melhor, eles estão muito mais românticos.

A violência entre os pais muitas das vezes é reproduzida pelos filhos/as que assistem e a normalizam e naturalizam interiorizando estes modelos de vida em que a violência-amor é parte essencial para uma vida a dois.

Alguns jovens consideram normal obrigar as namoradas a ter relações sexuais durante o namoro contra a vontade das mesmas, e as raparigas pensam que só estão felizes se tiverem a protecção e segurança do namorado. Estas questões aparecem devido ao sistema patriarcal sexista que utiliza instrumentos de dominação e controle para manter o poder masculino e perpetua-lo.

As jovens vítimas de violência dificilmente podem participar em todas as dimensões da vida social, cultural e politica uma vez que não têm as mesmas condições de outras jovens que não são vítimas de violência. As consequências são gravíssimas, alterações de comportamento, irritáveis, desobedientes, agressivos, baixa do rendimento escolar, falta de concentração, falta de hábitos de estudo, falta de autonomia e iniciativa.

As raparigas vítimas de violência de género ficam com marcas para o resto da vida que para recuperar devem ter acompanhamento e tratamento especializado.

Segundo Rêgo ”habituamo-nos a viver assim e não damos por nada. Disseram-nos que era assim. Sempre vimos que era assim. Começa nas primeiras roupas e nos brinquedos: “ É menino ou menina?” E, em conformidade, azul ou cor-de-rosa, carrinho ou boneca” (Rêgo, 2008:43).

As questões dos estereótipos de género estão presentes na educação que é dada a rapazes e raparigas na família e posteriormente na escola e sociedade “basta parar um pouco para ouvir, longínquas e presentes, as vozes de encorajamento e interditos a distinguir, a limitar, a marcar para a vida, quais os poderes de um homem e os poderes de uma mulher” (idem).

Os manuais escolares são transmissores das representações dominantes em torno da feminilidade e da masculinidade, levando os/as jovens a construções de identidade de género e à normalização de comportamentos. Mas também como “veículo ideológico, afigura-se hegemónico, evidenciando um elevado grau de convergência entre conceitos e valores que estruturam o seu discurso e as representações sociais que o senso comum incorporou e cristalizou” (Nunes, 2008:105).

Estas são algumas das questões que levam à violência doméstica e que foram incorporadas e cristalizadas. Muitas jovens ainda não denunciam a violência de que são vitimas, estão fragilizadas e precisam de apoio, mas também de perceber a construção social do fenómeno da violência doméstica, como se manifesta nos discursos, das atitudes e comportamentos. A prevenção primária e a sensibilização devem ser feita a jovens rapazes e raparigas desde muito cedo, para que possam mudar atitudes e comportamentos.

Ana Paula Canotilho

 

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